Como uma gestão se denuncia sem perceber
Existe uma maneira de uma administração se expor que é mais reveladora do que qualquer discurso. É o jeito como ela reage a quem discorda dela.
Numa cidade qualquer, sem data definida, um gestor encontra uma análise sobre o seu trabalho e conclui que o incômodo não está no conteúdo. Está em quem assinou. A partir desse pequeno deslocamento, o objetivo deixa de ser responder. Passa a ser remover.
Esse gesto, aparentemente técnico, é uma das passagens mais antigas do exercício do poder. Não é local. Não é novo. Aparece nos tratados renascentistas sobre como governar, e segue vivo em prefeituras, em redações, em gabinetes onde alguém com autoridade decide que prefere o silêncio ao contraditório.
A comunicação pública trabalha, basicamente, de duas maneiras. A primeira é fazer aquilo que precisa ser feito. Defender uma posição com argumento, sustentar uma decisão com dado, reivindicar o direito de resposta quando o tema estiver em discussão, refutar de frente, com hora marcada e ouvido de quem critica. É o caminho mais difícil, porque exige saber do que se está falando.
A segunda via é mais curta. Em vez de responder, retira-se quem critica. Em vez de convencer, pressiona-se quem dá espaço a ele. Em vez de defender serviço, exibe-se músculo. Esse caminho dispensa preparo. Exige apenas poder, e a disposição de usá-lo onde ele dói.
Quem escolhe o atalho costuma comemorar antes da hora. Acha que ganhou porque o ruído parou. É aqui que reside o equívoco mais antigo da política. Os manuais clássicos do exercício do poder são taxativos nesse ponto, ainda que tenham sido escritos cinco séculos atrás. O governante que não suporta ser contrariado revela, no momento exato em que cala, aquilo que o adversário tentava dizer. A reação confirma a acusação. É o que se poderia chamar de denúncia pelo silêncio. Uma voz forçada a se retirar costuma fazer mais barulho do que fazia quando ainda estava em cena.
Há também um detalhe que o poder fraco esquece. Numa sociedade de redes, abafar uma voz em um lugar é, na prática, distribuí-la em outros vinte. O público que veria uma crítica circunscrita a um único veículo passa a recebê-la, replicada, em conversas, postagens, prints, comentários, grupos. O custo do silenciamento é proporcional à insegurança de quem o impõe. Os gestores experientes sabem disso. Os apressados aprendem do jeito mais caro.
Não para por aí. Existe ainda o efeito sobre a instituição que abriu mão. Quando um veículo cede à pressão de um contratante institucional, ele faz uma conta de curto prazo que custa, lá na frente, exatamente aquilo que demorou décadas para construir, a confiança do leitor. Marca não é logotipo. É a soma das pequenas escolhas que o público registra quando ninguém está pedindo para que ele preste atenção. Uma redação que muda a sua linha diante de uma ameaça contratual acaba de revelar quem decide, lá dentro, o que entra e o que sai. Ninguém precisa ser avisado disso por comunicado. Esse tipo de coisa se aprende sozinho, e não se esquece mais.
Seria simplista atribuir tudo isso à má fé. Há gestores que se sentem genuinamente injustiçados pelas críticas, e há veículos que vivem de margens estreitas e precisam preservar receita para manter as luzes acesas. Os dilemas são reais. Mas reconhecê-los não cancela o efeito. Quem governa sob a tentação do silêncio paga, no fim, uma conta postergada. Quem informa sob a sombra do contrato público troca por uma fatura mensal aquilo que levou décadas para se construir.
A diferença entre as duas maneiras de exercer a comunicação pública, a do trabalho e a da mordaça, não se manifesta no dia em que o crítico é tirado de cena. Aparece no semestre seguinte. A aprovação cai, a audiência migra, o gestor descobre que a tranquilidade comprada saiu mais cara do que o desconforto evitado. Naquele instante, a voz que parecia neutralizada volta a circular, e desta vez sobre dois personagens, não mais sobre um.
Quem cala um crítico não silencia a crítica. Apenas a transfere de canal, com juros, e contrata, sem saber, o seu próprio biógrafo.


